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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A vizinha

Meu prédio tem uma acústica nula. Vc ouve o vizinho espirrando, soando o nariz, escarrando, ouve seu despertador tocando, a descarga no banheiro, o celular tocando, as brigas em família e infelizmente eu escuto diariamente uma vizinha distratando o filho de um ano de idade.
O menino, David, coitado, não sabe falar praticamente nada ainda e chora o dia inteiro, completamente infeliz, raras são as vezes em que escuto ele rindo ou brincando. Essa mulher, mãe dele, é uma infeliz que desconta toda sua fúria pelo marido e pelo seu sofrimento em cima dessa pobre criança. É muito triste escutar os berros dela, os xingamentos pra cima dele.
A criança chora e ela berra "caralho", "cala a boca garoto chato", "vou te dar uma porrada". O marido é um merda, chega a noite e se tranca no quarto pra ver tv, por muitas vezes escutei ela reclamando que ele não a ajuda, só quer saber de ficar deitado, não se importa se ela está ocupada e o filho tem fome e algumas vezes já escutei os dois brigando, claro, na frente do menino, que chorava assustado. Tudo bem que ele trabalha pra sustentar essa família mas chegar em casa e ter uma presença nula só faz essa criança sentir-se ainda mais sozinha.
Uma vez interrompi uma dessas brigas gritando "Nardoni" da área. Na hora funcionou, eles se calaram mas no dia seguinte tudo já havia voltado.
É óbvio pra mim que essa mulher é completamente miserável e infeliz mas me dói ouvir a forma como ela trata o filho e ouvir ele sempre chorando. Outro dia foi aniversário dele e eles receberam visitas e ouvi ela bajulando o menino. Aquilo me soou tão falso, ela ali tratando o filho como deveria tratar diariamente mas na verdade estava atuando para o público. Tão logo as visitas foram embora ela já era novamente ela mesma.
Hoje não consegui evitar. Eram seis horas da manhã e ele chorava e repetia sofridamente "mamãe, mamãe", enquanto ela berrava: "Porra David, o que foi? Eu to aqui, caralho. Pára de chorar" e ele continuava chorando e chamando por ela. Ela, burra, sem entender porque ele a chamava se estava ali do lado continuava berrando que estava ali e ameaçava bater para que ele parasse de chorar. Aquilo me deu vontade de chorar. Fui no quarto e vi minha filha, completamente princesa dormindo e pensei em como ela é feliz e em como ela adora que eu a trate com carinho, e que em instantes eu a acordaria como acordo diariamente, com muitos beijos, cafuné e carinho, e tive tanta pena desse menino que quase chorei. Fui na área e enquanto ele continuava chamando pela mãe e a ignorante continuava berrando que estava ali eu gritei: Ele quer carinho! Ele é só uma criança, quer seu carinho!
Só de escrever isso meus olhos já se molharam aqui. Funcionou por alguns minutos, ela parou de gritar e tentou carinhosamente falar que estava ali com ele e talvez tenha pegado ele no colo, ou dado algum beijo, e depois de uns minutos ele parou de chorar. Mas 15 minutos depois ele já chorava de novo e ela já berrava novamente.
Não sei quem é essa pessoa, acho que é do prédio ao lado, não do meu. Juro que se soubesse quem ela é e esbarrasse com ela ia acabar rolando um barraco pois ela precisa ouvir umas verdades de alguém.
Outro dia escutei ele rindo, gargalhando. Era muito cedo e estava me arrumando pra vir trabalhar quando de repente ela gritou: O que foi? Porque vc está rindo? Não tá vendo que estou nervosa???
O que faz uma mãe se irritar com o sorriso do filho?
Hoje eu pretendia desabafar sobre outras coisas, cuspir coisas que estão pesando aqui dentro mas o choro desesperado dele pedindo pela mãe, tão perto mas tão ausente, me deixou muito emotiva. Me doeu!
Quisera eu um dia esbarrar com David para fazer um cafuné, fazer caretas e barulhos pra ele rir, elogiá-lo e dizer o quanto ele é fofo, olhar nos seus olhos e sorrir pra ele!